quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Insights - Medicina (Parte I)

Se alguma vez uma área precisou de uma reforma, é a medicina. Cara, caótica, ineficiente e menos ainda eficaz, os cuidados com a saúde recebem muitas ideias inovadoras, mas a grande maioria delas não se mostram eficazes e muitas delas apenas iludem os pacientes quanto á seus quadros clínicos. Eis algumas ideias inovadoras em potencial:

1) Relacionar a saúde à Economia Comportamental


John Kenny desenvolveu, como diretor do Instituto Draftfcb de Tomada de Decisão, um conceito de utilidade multi-setorial conhecido como economia comportamental. Esse conceito ajuda a entender diversas obras criativas em áreas que não somente a medicina. Ele diz que essa é uma forma de pensar em tornar-mos mais eficazes no que fazemos, em vez de apenas mudar o que fazemos.

Na medicina, a questão da economia comportamental permitiria que as pessoas conhecessem mais não apenas sobre si mesmas (o que é o mais importante), mas também sobre os procedimentos médicos e os métodos de diagnóstico a que são submetidas por profissionais da área da Saúde.

Relacionar a medicina com a economia comportamental faz com que as pessoas: a) se questionem mais em relação aos problemas e queixas pelas quais estão sentindo e passando, b) evitem procedimentos médicos padronizados (ex: ir a uma consulta e esperar receber uma explicação básica do seu caso, um diagnóstico e uma prescrição médica); evitem pressões sociais para realizar tais métodos médicos (ex: você faz uma queixa sua para uma pessoa e ela te manda "ir ao médico"); e reformulem sua maneira de pensar sobre seu estado atual (esse exercício é o mais crucial, pois ao fazê-lo pode-se perceber que uma queixa no fim das contas é somente uma queixa isolada, um estado de espírito ruim por exemplo, e esta pode não ter relação nenhuma com sintomas físicos ou problemas acentuados de saúde). 

Adequando-se a essa síntese comportamental, as pessoas não se limitariam ao processo padronizado de ir ao médico, fazer exames e tomar pílulas, conheceriam mais sobre a natureza e a veracidade de suas queixas, e sobre o que poderiam alterar em seus hábitos que fosse a real causa de um problema (ex: pessoas que se queixam de dores nas costas e passam metade do dia sentados em uma cadeira sem qualquer educação postural). 

2) Decisões Baseadas em Evidências Concretas


Médicos nem sempre tomam decisões baseadas em evidências realmente concretas, e eu diria que grande parte deles age somente conforme o padrão de casos passados para aplicar ou indicar algum procedimento ou tratamento médico; ou agem sob considerações intuitivas.

O simples fato de os tratamentos para uma determinada condição de saúde variarem enormemente de uma região para outra é prova suficiente de que os médicos se baseiam cada vez mais na sua própria intuição e menos através de evidências seguras.

O acesso a registros médicos seria mais uma forma de os médicos obterem e passarem mais segurança quando na relação com seus pacientes.

3) Organizações Saudáveis


Empresas que investem na saúde através de incentivos financeiros aos médicos que seus profissionais frequentam. Os benefícios recebidos pelos médicos seriam proporcionais aos ganhos de saúde por parte dos funcionários, e os médicos então seriam recompensados pelas empresas por tornarem seus profissionais mais saudáveis e aptos para realizarem suas funções.

Somente orientar os funcionários a terem cuidados redobrados com a saúde nunca foi suficiente, e a ideia de recompensar médicos pela eficiência no quadro de saúde de seus funcionários poderia estimular os trabalhadores da área de saúde a melhorarem suas formas de clinicar, e fazer com que as pessoas trabalhem com plena saúde, é claro.

4) Checklists (Listas de Verificação) Feitas Antes de Procedimentos Médicos


As listas de verificação (checklists) são um processo de segurança feito antes de qualquer ação que envolva a responsabilidade e o impacto de um grande número de pessoas. As checklists são usadas na medicina, na aviação ou no setor de construção civil, por exemplo. 

Na medicina, alguns exemplos (ex: realizar checklist para decidir se uma operação é adequada ou não a um quadro clínico específico, realizar checklist para decidir quais exames investigativos são os mais adequados para se chegar a uma conclusão de diagnóstico pata tal situação clínica, e etc).

As checklists, na medicina, ajudariam os médicos a distinguirem erros previsíveis e a conhecerem mais sobre a natureza dos erros inevitáveis. Segundo o pesquisador John Hopkins, devem-se criar listas de verificação que foram usadas e comprovadas antes por uma série de vezes para tratar da saúde dos pacientes, pois se as listas forem confusas ou desnecessárias, o excesso de confiança dos médicos ao tratar de seus pacientes pode ser bastante perigoso. 

O importante é informar os pacientes de que as checklists para qualquer procedimento médico pelo qual passarão estão sendo usadas adequadamente, dessa forma, esses pacientes se sentirão mais seguros com relação ao tratamento que estão recebendo.

5) Medicina Regenerativa


Há muito já se sabe que células-tronco tem capacidades auto-regenerativas e podem transfigurar qualquer tipo de tecido (músculo, osso, fígado, rins, etc), e podem curar uma série de doenças potencialmente devastadoras.

Existem várias razões para se acreditar que as células-tronco são uma perspectiva otimista para um tratamento que necessite delas, porém, alguns detalhes fazem com que esse método não seja de todo aceitável para diversos casos médicos, como altíssimo preço e ineficácia em certas situações.

6) Portal do Paciente


A ideia de organizar todas as suas informações de saúde em um único lugar on-line e coordenar seu negócio com relação à própria saúde parece bastante boa no papel. Os pacientes poderiam fazer login em seu próprio "portal de saúde", acessar e compartilhar seus registros médicos, verificar exames de laboratório, renovar receitas, se comunicar com médicos e enfermeiros, etc.

Essa pode ser uma ideia potencial para reduzir erros de não-conhecimento de alguma causa de um problema médico por exemplo, mas a ideia de um portal médico online para pacientes esbarra em uma questão delicada, que é a privacidade.

7) Genética Médica


Terapias genéticas se baseariam em combater males quaisquer que estivessem limitando ou prejudicando as pessoas, realizando a codificação genética dos pacientes e sabendo quais predisposições ou tendências para certos problemas ou doenças elas teriam, para assim direcionar a terapia para o problema específico que foi verificado na análise dos genes do paciente.

Uma ideia seria substituir os genes defeituosos identificados e trocá-los por outros, saudáveis. Outra ideia seria fazer um tratamento de drogas específico para determinado perfil genético, criando curas personalizadas para cada perfil traçado.

8) Consultas Virtuais


Essa seria uma ideia para tratamentos complementares (sem a necessidade de acompanhamentos por consultas).

Consultas virtuais não substituirão as visitas ao médico, por mais que isso soe agradável. Os sistemas virtuais disponíveis não permitem que os médicos analisem as situações de seus pacientes de forma segura e nem capturem diversas versões sobre as causas de um problema (como verificar açúcar no sangue, pressão arterial, frequência cardíaca, etc).

Além disso, barreiras culturais impediriam que consultas online fossem administradas como principal metodologia de acompanhamento médico, mas a ideia de visitar seu médico não saindo da frente do PC poderia ser útil em casos que não necessitem contato médico (ex: consultas com analistas ou psicólogos).

9) Novas Formas de Remuneração aos Médicos


As formas de pagamento de médicos costumam ser baseadas na quantidade de casos e procedimentos que eles recebem e tratam, e também na quantidade de horas que dispendem para realizar seus horários rotineiros e ainda os de plantão. Isso de forma alguma garante a eficácia nos resultados e nem a satisfação dos próprios médicos por terem feito um diagnóstico de sucesso ou mesmo uma cura milagrosa.

Em vez de serem pagos pelo volume de procedimentos e casos que recebem, os médicos poderiam ser remunerados através de um sistema de recompensa. Se forem capazes de avaliar, acompanhar e satisfazer a demanda de saúde de seus pacientes, então sua recompensa seria na forma de pagamentos, que serviriam como incentivos á melhores práticas médicas e ao maior índice de sucesso nos resultados dos tratamentos.

Ou seja, seria uma remuneração proporcional á produtividade, e não na quantidade de tempo trabalhada.

10) Medicina Robótica


Novas tecnologias médicas como o uso de robôs faz jus a questão de "o mais novo é o melhor".

Nesse caso, não deixa de ser mesmo. Robôs cirúrgicos, por exemplo, auxiliam os médicos em praticamente tudo (desde uma cirurgia do coração até um transplante de rins), mesmo que ocupem espaço e possam deixar o médico em uma posição menos adequada para conduzir a cirurgia. E um detalhe importante é que os robôs serviriam apenas como suporte, e não como responsáveis diretos por cirurgias e operações. 

Já há casos concretos que comprovam que pacientes se sentem mais seguros e agem melhor quando tem conhecimento de que um robô auxiliará seu cirurgião na hora da cirurgia. Ou seja, grande parte dos pacientes não considera os robôs como fonte de risco para que suas cirurgias sejam bem-sucedidas, e sim como se fossem reais auxiliadores do processo cirúrgico, e por consequência, de sua recuperação.

E é isso o que robôs são. Ajudantes. E não devem passar dessa função, pois a medicina ainda é uma ciência que trata das relações humanas, e robôs não vão ocupar essa posição.

Mas robôs podem, e irão se tornar, à medida que os custos com essa tecnologia diminuírem, cada vez mais presentes nas salas de cirurgia.

Talvez no futuro você seja operado por um médico e seu robô assistente. O que acha?


*Esses insights foram citados e comentados em diversas universidades e hospitais pelo mundo, e os adaptei a esse post em uma citação original presente na publicação Harvard Business Review.

Um comentário:

  1. Dú, alguns comentários sobre cuidados que devem ser tomados: 1- na primeira sessão eu concordo plenamente no autoconhecimento, sempre é excelente. Porém, sem o preparo e estudo adequado, você não conseguirá na maioria dos casos acertar a raiz de sua queixa. O brasileiro já tem o péssimo costumo de se auto-medicar, deve-se tomar o cuidado para não fomentar tal ação indevida. No mais, deve-se ter cautela de não jogar a responsabilidade do médico em fazer um exame criterioso com perguntas inteligentes e precisas para a população, porque "o sistema médico está abarrotado", isso poderá causar ainda mais pessoas nos médicos por imperícia ou auto-medicação errônea.
    2- Perfeito, sem comentários, concordo com absolutamente tudo.
    3- Mais que perfeito e isso não é apenas a nível basal, o acompanhamento deve ser feito desde a alimentação, até prática de exercícios físicos e exames periódicos! Algumas empresas, como a minha, já fazem isso com alguns cargos e o resultado é muito acima de qualquer expectativa.
    4- Checklists já estão sendo utilizados em muitos hospitais, mas não todos, infelizmente.
    5- Apostas futuras, vamos torcer para que, como tudo no mundo, estas pesquisas também evoluam!
    6- Ótima ideia, na verdade. Cara, burocrática e bastante longe à nível Brasil de ser implementada, mas realmente ótima. Questão da privacidade, bem, basta seu login e senha ser único e criado por você. Acredito que todo mundo tem mais coisa para fazer do que pesquisar logins e senhas alheios...
    7- Ideia parece boa...mas...bem...bastante polêmica! Isso poderia criar um "rush" de análises desse tipo, preocupações muitas vezes inexistentes e, pior do que tudo, erros de cálculos genômicos, novas mutações, doenças, etc...Eu não me arriscaria muito por aí...
    8- Sou contra, bastante contra. Não me agrada em nada essa ideia, na verdade! Para mim, mesmo consultas em terapeutas, nada, de nenhum tipo, substitui a conversa cara a cara.
    9- Preciso desenvolver mais esse tema...Mas parece justo! Não consigo pensar em pontos negativos no momento...É justo, mas seria complexo a definição de quanto ganhar pela melhora de cada doença/paciente/estado, etc.
    10- É o futuro amigo, sem mais!

    Edu, parabéns pelo Blog, conhecimento e modo como expõe as suas ideias, comentários e pontos de vista. Continue assim!

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