domingo, 4 de agosto de 2013

[Conto] Refúgio da Noite - O Mendigo e a Mulher (Episódio I)

Dimitri andou pelo velho distrito sem ser notado. Ou pelo menos ele não esperava ser notado. Era difícil esconder sua identidade. Era reconhecido por qualquer um que o visse durante o dia, dentro da fortaleza. E assim seria de noite também, se ele não se lembrasse de que não era o mesmo homem nessa parte do dia.

Ele respirou o ar que entrou direto em sua cara quando abriu as janelas de seu grande quarto, dentro da cidadela na fortaleza de Mahri.

As roupas caras e elegantes que ele era obrigado a usar por etiqueta podiam, e foram trocadas pela túnica rústica cinza, de hábito, que o envolvia em seu manto secreto todas as noites.

Ainda em seus aposentos dentro da fortaleza, Dimitri lavou bem o cheiro dos perfumes que usou durante o dia para oferecer boa impressão. Acendeu a lareira e esperou começar a cheirar a fuligem e cinzas. Despenteou o cabelo e se certificou de que a barba estava por fazer a dias o suficiente para cobrir seus traços faciais.

Saia às ruas naquele dia, finalmente. Não havia como esconder aquele queixo quadrado e retorcido, e ele não ligava para esse detalhe. Podia andar de cabeça baixa e curvado, para tentar disfarçar o fato de que era mais alto que a maioria das pessoas ou esconder seu corpo musculoso. Mantinha o capuz puxado sobre a cabeça, apoiava-se em uma bengala curta e falava o mínimo possível.

Ele amava noites como essa. Gostava e vivia no anonimato; de escapar das restrições e obrigações da corte; gostava de ser simplesmente Dimitri. E não Olic, como o chamavam.

O velho distrito que percorria não era, apesar do nome, a parte mais antiga daquela cidade russa. Era banhado por vielas e ruas escuras, formando um labirinto de casas, fábricas abandonadas, prédios arruinados, estabelecimentos comerciais com as grades altas, becos sem saída. Aquelas ruas tortuosas mudaram pouco conforme o tempo. Continuavam sem iluminação, cheio de fissuras e buracos. O velho distrito abraçava com firmeza seu passado sombrio e recusava-se a largá-lo.

Esse labirinto urbano e velho fazia parte de uma região que ainda possuía lugares mais bonitos, apresentáveis. Ficava no meio de dois grandes parques públicos, um circo arruinado pelo fogo que já dormia, teatros (a maioria deles inativo), e outros locais. 

Mistérios espreitavam nos becos claustrofóbicos, havia assassinato e intrigas nas sombras. As lojas continham qualquer coisa que o coração do homem pudesse desejar, se soubesse onde procurar e pudesse pagar; as tavernas eram ruidosas e agitadas pela alegria movida à álcool do povo comum; as ruas eram cheias de vida em toda sua mistura de glória e repulsa.

Se você não consegue achar o que deseja no velho distrito, então tal coisa não existe. Era uma velha máxima naquela cidade russa.

Aquela parte da Rússia era lembrada pela desigualdade social, pela pobreza, pelas condições escassas de vida, por moradores que acordavam nas manhãs e guerreavam por uma vida mais digna do que haviam suportado no dia anterior. Era lembrada pelo antagonismo que representava em relação a parte rica e luxuosa da cidade, onde a fortaleza servia como ponto de referência. Onde Dimitri passava seus dias aprisionado pela luz do sol, que ao se esvair o liberava de seu torpor mental. 

Mas era mais lembrada pelo talento e pela criatividade.

Diziam que das ruas daquele distrito velho surgiam quase todos os artistas da Rússia. Mesmo para um observador descuidado ou para um cético das artes, era impossível não notar a quantidade de pessoas que possuíam alguma forma invejável de expressão artística. Cantores, menestréis, bardos, pintores, escultores, poetas, dançarinos, malabaristas, atores, e qualquer tipo de maestria produzida pelo homem existia por ali, e quase todos esses artistas eram meio que desvalorizados pela sociedade. 

Essa era uma razão, das maiores, pela qual Dimitri Olic perscrutava os ambientes onde sabia que haviam esses talentos ocultos. Era um amante da arte e de seus praticantes, e por isso captava facilmente indivíduos privilegiados por essa virtude. 

O amor também era uma arte que Dimitri captava. Havia encontrado seu amor no velho distrito, claro. Safina. Era para o amor que ele corria quase todas as noites.

- Perdão, meu senhor. Você teria uma moedinha para alguém comprar um pão? - a voz surgiu da boca escura de um beco, acompanhada pelo cheiro de dentes podres.

Aqui, nas entranhas da cidade bem perto do centro do velho distrito, bem distante das luzes mágicas que vinham da fortaleza, a pouca iluminação presente vinha em grande parte das janelas abertas de tavernas e bordéis, a claridade era fraca e intermitente. As sombras mudaram de lugar, e Dimitri viu o homem ali. Ele também o conhecia, apesar do mendigo não fazer ideia de sua existência, como todos por ali. O mendigo era conhecido como "Anzor maluco". O mendigo não sabia se Anzor era realmente o nome que sua mãe não conhecida havia lhe dado, mas ele achava que devia ser, pelo fato de todos o chamarem assim. 

Dimitri Olic vasculhou seus bolsos em busca de dinheiro, e seus dedos puxaram uma moeda dentre as outras ali dentro. Ele estendeu a mão.

- Aqui. - falou para o mendigo. Dimitri manteve a voz baixa de propósito, grunhia as palavras para esconder o tom grave natural. - Compre pão ou bebida, não me importo com qual dos dois.

Uma mão ligeira surgiu e pegou a moeda assim que lhe foi posta no raio de visão, e Dimitri a jogou na direção do homem.

- Obrigado, senhor. - disse Anzor. - E, em troca, deixe-me lhe dar uma coisa.
- O que você teria de valioso para me oferecer? -  e Anzor pareceu rir.
- Tudo o que você quiser saber. 
- Hmm, informações. Tenho certeza que você sabe muitas coisas. Será que estou interessado em alguma delas? - indagou Dimitri.
- Pode confiar em mim. Anzor não é uma ameaça para você.
- Não disse que era. E se fosse, eu acho que não teria lhe dado uma moeda, teria? - o mendigo deu um risinho e dois passos a frente.
- Eh, acho que não. Mas porquê ainda não foi embora? A maioria das pessoas acha que sou maluco. - estranhou o mendigo.
- Elas devem achar. Mas você se enxerga como louco?
- Eu não me enxergo a meses, senhor. Não sei que homem você está vendo agora. Pareço muito mal?
- Você não deve confundir imagem e caráter, Anzor. Você sabe quem é. Sabe o que faz parte de você, mesmo não podendo se enxergar. E veja, eu estou te vendo agora, e não te conheço. E você pode me ver, é o que importa.
- Na noite de hoje, sim. Pode ser que isso basta, amigo. Estou te vendo, conversando com você. E acho que devo gostar disso. Estou gostando.
- Que bom.
- Mas eu vejo as pessoas que passam por aqui toda madrugada, e não consigo enxergar o que elas são, o que elas gostam. Com você é diferente. - afirmou o mendigo.
- Você não as vê porque elas se sentem acuadas. E você também. Elas fogem de você como você se esconde delas. Como saber o que se passa na cabeça delas? E essas pessoas também se perguntam o que se passa na sua cabeça.
- O que eu me pergunto é: porquê ainda está na minha frente? Está querendo zombar de mim ou me prender?
- Eu estou rindo ou estou vestido como policial? - perguntou Dimitri, sério, abrindo as mãos e mostrando seu manto cinza rasgado.
- Você quer realmente algo de mim. Senão não estaria aqui. Estaria com sua esposa, seus filhos. - disse Anzor.
- Não tenho família. Eu já tive. 

E Anzor assumiu uma expressão curiosa. Olhou de cima a baixo para Dimitri.

- Você também mora na rua? - se interessou o mendigo.
- Acha isso por causa das minhas roupas?
- Sim.
- Não, não moro nas ruas. Mas eu fico acordado perambulando por elas, enquanto todos que podem estão dormindo. Não sinto falta de sono. Prefiro ter o privilégio de conhecer pessoas interessantes, como você, em vez de desperdiçar meu tempo em um repouso que não trará nada mais além de descanso. - o mendigo ficou assustado.  
- Acho que entendo.
- E você não queria só uma moedinha. Senão também não estaria aqui. - disse Dimitri, sorrindo. - Só não se deu conta disso ainda. 
- Na verdade, não sei mais o que quero.
- Não é assim que as coisas geralmente acontecem? Nós não sabemos o que precisamos até que alguém tire de nós ou até recebermos. Mas você pode tentar parar de procurar pelas coisas, Anzor. Quem espera muito quase sempre consegue pouco. Mas veja, não esperar por nada não quer dizer não sonhar ou não desejar. O que você desejaria agora? 

E o mendigo Anzor pensou um minuto em tudo o que desejava. Pensou mais um minuto.

- Desejaria ser tratado por todos da forma como você me trata, senhor. Nunca vi ninguém como você por aqui. Se me permitisse, poderia saber seu nome?
- E o que iria mudar? Não se contenta com apenas minha imagem?
- Mas você sabe meu nome. Sabe quem eu sou. Eu não sei quem você é. - falou Anzor.
- Você não sabe meu nome e não sabe quem eu sou, não me conhece. Eu sei como te chamam mas também não te conheço. E estou me contentando com isso, Anzor. - falou Dimitri, se aproximando do mendigo e ficando a um metro dele.
- Acho que entendo. - disse o mendigo, passando os dedos pela moeda de prata que havia recebido. - Agradeço do fundo do meu coração por essa moeda, e mais ainda por tê-lo conhecido.
- E eu ficarei mais grato ainda se você garantir que não será a última vez que o vejo. - Dimitri falou. - Você sabia que, para os gregos, Anzor significa liberdade? - o homem estranhou.
- Liberdade? Não pode ser.
- Não se estranhe se você se sentir preso. Procure pelo que não sabe, converse com quem tem vontade, lute por suas convicções e aja conforme seus sentimentos, pois você é livre para pensar. Quer maior liberdade que essa? - e Dimitri sorriu mais uma vez. - Nunca pensou por esse lado?

Sorriu e percebeu que de um dos olhos enegrecidos e encovados do mendigo surgiu uma lágrima. Dimitri não desejava vê-la ali, mas sabia que não poderia tirar o homem de seu momento de fragilidade e introspecção. 

Notou que passara da sua hora de comparecer a seu compromisso. 

- Algum problema aí? - perguntou outra voz desconhecida das sombras.

Anzor piscou para Dimitri com o olho que não lacrimejou. E antes do herdeiro de Mahri perceber, o mendigo havia ido embora.

Onde a rua cruzava com outra, um homem uniformizado como os policiais da cidade estava segurando uma lanterna acesa com o refletor virado para Dimitri, que protegeu o rosto do brilho.

O uniforme era verde musgo, estilo militar. Dimitri sabia quem eram aqueles policiais. Eram colocados a serviço da grande sociedade, ou pelo menos era o que a inscrição nas roupas fardadas diziam; seu trabalho era patrulhar as ruas e acabar com qualquer confusão que encontrassem, ou ajudar qualquer cidadão que precisasse de ajuda. O cassetete do policial ainda estava preso ao cinto, mas o homem pousou a lanterna nos paralelepípedos e segurou o apito de cobre perto dos lábios.

- Não. - respondia Dimitri, alterando o tom da voz. - Só deixei cair algo no caminho, e o homem que estava aqui só estava me ajudando a pegar.

O policial acenou com a cabeça. Deixou o apito pender pela corrente sobre o peito e pegou a lanterna novamente.

- Muito bem. - o refletor fez um clique e a luz focada em Dimitri ficou suave e difusa, mas o policial parou ali, ainda observando.

Dimitri perguntou-se se foi reconhecido pelo policial. Ele sempre se perguntava. Ajeitou o manto sobre os ombros e puxou o capuz para que o policial visse o seu rosto encoberto pelas sombras. Aproveitando-se da visão limitada do policial no escuro, Dimitri saltou para uma viela perpendicular, e saiu correndo velozmente por ela toda. Virou à esquerda, depois à direita, passou por aglomerações de pessoas fora da porta de tavernas ou que andavam pela rua. 

Ele manteve o capuz próximo ao rosto ao passar por uma lanterna reluzente de outro policial em patrulha, depois seguiu rapidamente por uma rua deserta onde as casas pareciam se inclinar na direção uma das outras, como se estivessem cansadas. Dimitri sabia onde queria ir. Ele sabia onde ia querer passar a noite de hoje. 

Ele foi até uma porta pintada de azul-claro, que parecia cinza-claro à noite, e empurrou para abri-la. Lá dentro, em um aposento decadente, porém limpo, uma jovem que atiçava uma lareira virou-se.

- Ah, Dimi. - falou a mulher. - Não imaginamos, ah.... não sabíamos que vinha hoje. Ela está lá em cima.

Ele subiu as escadas em silêncio, parou no patamar e bateu na porta antes de abri-la. Velas espalhadas por todo o quarto davam um tom dourado aos móveis do quarto e às tapeçarias nas paredes brancas. Em cima de uma mesa de mogno, um tocador de discos reproduzia uma melodia calma, relaxante. No canto do quarto, havia uma cama de dossel imensa e duas mesinhas de cabeceira ao lado.

Dimitri conhecia aquele quarto, e melhor ainda a mulher que estava nele. O quarto era ostensivamente sexual, ostensivamente convidativo. Ele achou graça do modo como a mulher estava estirada na cama, toda desengonçada, o comprido cabelo loiro solto e jogado sobre o travesseiro.

- Estava quase dormindo. Quase. Achei que não vinha. - disse ela, fazendo um biquinho.
- Desculpe pelo atraso, Safina. Eu conheci uma pessoa e depois....me distraí com uma banda que estava tocando música ali no parque. - mentiu Dimitri, protegendo sua reputação.
- Relaxa, Olic. - falou ela, sorrindo. - Parece que a música te deixou tenso. - disse ela.

Os olhos de Safina eram grandes, da cor de mel. Dimitri forçou um riso de leve.

- Lá no parque, a última música que ouvi falava sobre amor e liberdade. Vim pra cá antes de terminar de ouvi-la. - falou ele, agora sorrindo de verdade.

Dimitri fechou a porta e não se incomodou em trancá-la. Ele abraçou Safina, puxou a cabeça dela para a sua e a beijou. A garota subiu em cima dele, e Dimitri esqueceria de tudo por algumas horas......

Nenhum comentário:

Postar um comentário