quarta-feira, 31 de julho de 2013

[Conto] Refúgio da Noite (Prelúdio)

Esse é o prelúdio de uma saga fictícia, habitada em uma região nobre da Rússia, cujo protagonista é Dimitri Olic, capitão do exército principal da fortaleza do distrito de Mahri, mesmo nome de seu pai, do qual herdou todos seus títulos nobres. 

Cumprindo apenas por obrigação seu papel de capitão das tropas durante o dia, e sem motivação alguma cumprindo esse papel, Dimitri percebe que vive em uma ilusão dentro daquela fortaleza na qual passa seus dias, e somente conhece a si mesmo, plenamente e de acordo com sua personalidade e seus valores, no período da noite, uma hora após o crepúsculo, quando geralmente já terminou suas tarefas de comandante do exército e pode, enfim, sair diariamente pelas ruas e vasculhar tudo e todos em busca da verdade fria e cruel da realidade vigente naquele distrito russo que era desolado por caos, desesperança, fome, pobreza e muito frio. 

Saindo, durante o dia, do conforto, do luxo, da importância de seu nome, e do contato com pessoas falsas que para ele vestem máscaras (que é apenas o que lhes atribuem valor), coisas que lhe são insignificantes, ele busca na noite e nas pessoas subjugadas que fazem parte dela os valores que determinam o real caráter de sua pessoa.

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Introdução



Ficou à espreita, no limite da multidão, como sempre fazia. Ficou observando, como sempre fazia. Avaliava as pessoas na rua, cuidando da vida de alguma forma, e ele se fascinava apenas contemplando-as tocarem seus negócios. Algumas pessoas corriam apressadas para cumprir seus compromissos urgentes, outras andavam cabisbaixas e distraídas, e alguns levavam na volta para casa uma sacola com pães, grãos ou especiarias quaisquer para abastecerem suas despensas.

No frio do inverno ou mesmo no calor do verão, Dimitri Olic se metia em várias camadas de roupa, todas com grandes rasgos e as barras caídas, o tecido sujo e escurecido de graxa e pó acumulado do asfalto ou dos pedregulhos da rua. As calças roçavam na calçada de tão compridas, e cobriam com vantagem aquelas pernas de vara pau. 

As calças eram cinzas, como o capuz, que estava erguido, escondendo seu rosto arruinado e cheio de crateras e cicatrizes que só podiam ser vistas de relance; as órbitas vazias de seus olhos, criando fossas salientes abaixo deles, o nariz gigante e torto. Porém, seus dentes resplandeciam, seus olhos eram coroados por um azul escuro e brilhavam toda vez que luz batia neles. Seu cabelo era negro do mais escuro, e mechas dele se espalhavam pelos seus ombros e ao redor do capuz acinzentado. Ele tinha queimaduras na bochecha esquerda, resultado da exposição frequente ao frio extremo. Mas bom russo como era, gostava do frio. Era adaptado a ele.

Ele gostava do frio, e mais ainda, gostava de discrição. Para ele, a diferença entre ser reconhecido ou não pelas pessoas da rua era de tamanha importância, dado o fato de ele ser herdeiro do comandante Mahri, já falecido. Seu pai foi capitão da principal tropa de batalha que subjugou todos os distritos russos a seus domínios e leis, e morreu quando todas as cidades vizinhas as quais batalhou finalmente renderam seus homens ao poder de seu exército remanescente.

Na fortaleza que um dia foi comandada por seu pai, ele passava a maior parte do tempo, infelizmente para ele, tratando e cuidando de suas responsabilidades, que não eram poucas, dada a influência que a família Olic ainda detinha nas redondezas, através dele e de sua irmã, Anna. 

Ele era conhecido e respeitado por todos, uns até lhe fazendo reverências ao lembrar da honra e glória vivida por seu pai e atribuídas a ele. Ele não se sentia orgulhoso, e na verdade nunca se sentiu quando as pessoas lhe agregavam status elevado. Preferia comer quieto, realizava suas tarefas seguindo uma rotina preestabelecida e conversava com todos no mesmo tom, desde os criados dos lordes, os cavalariços e as cozinheiras, até as damas de honra e os capitães das tropas de segurança da fortaleza do distrito. Usava um tom geralmente calmo ao falar, pois não gostava de esquentar a cabeça a cada problema que aparecesse. Ele já notava muitos por si só.

Mas, na rua, sempre a noite, ele seguia algumas regras pessoais das quais não abdicava de forma alguma, e uma delas com certeza era não ser reconhecido, pelo menos de rosto, por ninguém que seja. 

A maior frustração de sua vida ele achava que estava no seu sangue. Desde à infância até seus atuais 43 anos, foi tratado como um pupilo de ouro, sempre reverenciado e prestado a ser elogiado por alguém, cuidado de alguma forma, sempre saciado seus desejos e necessidades, tido as mulheres as quais apontava os dedos ao demonstrar atração. Ele percebia o respeito no olhar das pessoas. Mas as tratava sempre como era tratado, de forma exímia, ele achava, pois mantinha sua consciência tranquila. Porém, ele não era idiota, e não se deixava enganar por rostos bonitos, roupas exuberantes, adornos de ouro ou expressões simpáticas. 

Dimitri se frustrava por aquela adoração cega que as pessoas mostravam claramente sentir por ele. Ele tinha convicção plena de que era admirado apenas pelo que corria em suas veias, o sangue da lendária família Olic. Respeito absoluto e garantido. E por isso odiava aquele comportamento submisso por parte das pessoas para com ele. Preferia ser tratado sem que a linhagem de sua história fosse levada em consideração. Mas sabia que isso não aconteceria. Pessoas importantes geravam descendentes de importância, de renome, e isso ele não podia impedir, era um desses. 

O que podia fazer era procurar por um subterfúgio no qual pudesse viver de maneira livre, aventureira, estudiosa das pessoas que passavam por reais dificuldades, dos que lutavam para viver, com suas dificuldades iminentes, e Dimitri se sentia maravilhosamente bem fazendo isso, e o fazia; em vez de agir como os que ostentavam para demonstrarem serem pessoas dignas, amáveis e confiáveis, quando se escondiam no manto de mentiras, discórdia e avareza.

Para Dimitri, todas as pessoas que habitavam aquela fortaleza antiga escondiam seu caráter e suas verdadeiras ambições por trás de máscaras, as quais utilizavam para desempenhar distintos papéis, assumindo cada um deles conforme a conveniência da situação. Ele também usava uma máscara. Não física, mas a que sabia que todos tinham em seu semblante quando queriam. A máscara da verdade, ou da mentira, do amor e do ódio, da saudade, ou do frio, da solidão e do desamparo, da esperança e da ambição, ou do desejo e da impotência. Qual delas ele usava, não sabia, mas ele não se importava qual delas era. Não era nem um pouco vaidoso, então qualquer uma servia.

Também não se importava muito com isso.

Vestido religiosamente daquela forma, com trapos cinzas cobrindo seu corpo, ele saía todas as noites, sem falta. Não precisava dar desculpas para ninguém sobre onde estava, já que ninguém ousava questionar seus atos, pelo menos após seu expediente.

Ele vivia uma espécie de vida dupla. Um rico e nobre herdeiro de um ex-capitão condecorado durante o dia, e um pobre e sujo viajante noturno das ruas. A primeira personalidade lhe era imposta pelo sangue, a segunda ele escolhera seguindo fielmente os valores que acreditava fazer parte de si mesmo, como uma jornada que lhe foi auto-descoberta. Dimitri adorava conhecer as pessoas e suas formas de vida durante a noite e parte da madrugada. Naquela região da Rússia, fome, pobreza, caos e desolação tomavam conta das ruas, todos os indivíduos que frequentavam as calçadas e paralelepípedos durante a noite o faziam por falta de opção, e muitos só tinham as roupas do corpo como moeda de troca para recursos de sobrevivência.

Devido ao frio infernal que fazia na maior parte do ano, a maioria dos mendigos, transeuntes, malabaristas, atores, sapateiros, vendedores de ervas, curandeiros malucos e demais lutadores pela sobrevivência morriam antes de completarem uma semana vivendo naquelas condições severas.

Dimitri Olic saía as ruas durante a noite pois aquilo representava um ritual do qual não pretendia abrir mão, até o fim de sua vida, faria parte dele. Apenas nas ruas ele sentia paz e conforto, onde todos pareciam sentir medo e desesperança. Ele se sentia observando o mundo de uma forma real, peculiar, verdadeira, em todo seus sentidos, apenas a noite, nas vielas. 

Durante o dia inteiro recebia convites para sair de mulheres que queriam explorá-lo, convites para reuniões com líderes corruptos, e jantares com lordes ambiciosos. Era reverenciado por pessoas que se limitavam à sua condição privilegiada. Mas privilégio ele não percebia, nunca percebeu enquanto cumpria seu cargo. Ele notava mentira, luxúria, ambição, comensalismo, jogo de interesses, trapaças e tramas que geravam intrigas dentro daquela fortaleza fria. Ele guardava isso para ele, é claro, e por isso todos por lá ainda o suportavam como um homem de importância e status inquestionáveis.

Dimitri se sentia extremamente melancólico com toda essa bajulação.

Por isso ia às ruas, sempre ao cair do sol dos dias, sempre uma hora após o crepúsculo. Quando atravessava a calçada, os pais diziam a seus filhos assustados: "É só um homem das ruas, não lhe fará mal", olhando para ele como se não estivesse ali. Ás vezes, esses mesmos pais ou quaisquer outras pessoas lhe jogavam moedas a seus pés, talvez para compensarem a forma como o tratavam de antemão. Dimitri olhava para as moedas e não se dignava a pegá-las. Ele as chutava para bem longe. Talvez por isso, e por outros motivos, ele era chamado por ali como o "homem maluco da noite" ou como o "homem da máscara cinza".

O que ele queria não era mais nomes, designações de poder. O que buscava ali era exatamente tudo que lhe ofereciam enquanto o sol mantinha-se no céu, mas ele não aceitava por considerar como falsidade. Preferia buscar por si só por conforto, sexo, amizades, bebida, aventuras, e se necessário, brigas e discussões. Criava uma bolha na qual se mantinha durante a noite. Aquilo lhe revigorava, lhe dava forças para aguentar toda aquela falsidade que pairava na fortaleza, lhe fazia entender as razões e sentimentos legítimos das pessoas, a conhecer o mundo frívolo e nada acalentador que nunca lhe apresentaram antes.

Vivia na noite e com as pessoas que nela buscavam sobreviver, pessoas que eram subjugadas por todos, mas reverenciadas por Dimitri, assim como faziam com ele durante o raiar do dia. Mas Dimitri preferia o escuro. Era uma criatura da noite.

Esse é o prelúdio da saga que criei baseada no personagem Mahri, do livro: "O Trono do Sol", de S. L Farrell; Livro Um.

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